Há documentos que atravessam o tempo apenas como registros técnicos. Outros, no entanto, carregam algo a mais: história, conhecimento acumulado e a assinatura de quem dedicou a vida inteira a compreender um fenômeno da natureza.
Quando um laudo técnico traz o nome de Benedictus Mário Mourão, ele não representa apenas uma análise científica. Representa a voz de um dos maiores estudiosos das águas minerais e do termalismo no Brasil.
Mourão foi uma figura central de uma área hoje praticamente desaparecida das universidades: a crenologia. Trata-se de uma especialidade médica dedicada ao estudo das propriedades terapêuticas das águas minerais. Durante décadas, médicos crenologistas investigaram fontes naturais com o olhar atento de quem buscava entender como a composição mineral da água poderia agir sobre o organismo humano.
Era uma ciência que unia natureza, medicina e observação paciente. Hoje, muitos desses estudos migraram para áreas como a hidrologia médica e a geologia médica, mas a crenologia marcou profundamente a história das pesquisas sobre águas minerais no Brasil.
As obras que consolidaram sua autoridade
Muito antes de analisar qualquer fonte específica, Mourão já havia construído uma trajetória intelectual sólida e respeitada. Seus livros ajudaram a formar gerações de pesquisadores e profissionais ligados ao estudo das águas minerais.
Entre suas principais obras estão:
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“Termas de Crenologia – Poços de Caldas” (1976)
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“Medicina Hidrológica” (1991)
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“A Água Mineral e as Termas” (1997)
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“Medicina Talássica – Termalismo marinho e moderna talassoterapia” (1998)
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“Quarteto Construtor de Poços de Caldas” (1998)
Além dos livros, publicou mais de 150 trabalhos técnicos em revistas científicas. Foi membro da Academia Nacional de Medicina, participou do conselho da Sociedade Brasileira de Termalismo e dirigiu os Serviços Termais de Poços de Caldas, um dos mais tradicionais centros hidrominerais do país.
É justamente esse percurso que torna o laudo crenológico emitido em 2003 para a Fonte Arigatô, em Corguinho (MS) um documento de peso singular.
O que o laudo afirma sobre a água da Fonte Arigatô
O parecer técnico foi elaborado com base em análises físico-químicas, radiométricas e bacteriológicas, conduzidas pelo laboratório LAMIN. A partir desses dados, Mourão registrou observações que revelam as características naturais da fonte.
Segundo o especialista, trata-se de uma água mineral leve, límpida e agradável ao consumo, características que sempre despertaram atenção entre estudiosos das águas naturais.
O laudo também ressalta o baixo teor de sais minerais, característica que contribui para uma ingestão suave e equilibrada. Águas com essa composição costumam apresentar grande harmonia sensorial, característica frequentemente encontrada entre grandes fontes minerais ao redor do mundo.
Outro ponto importante destacado no documento é o valor hidrogeológico da fonte. Mourão observa que o Brasil possui uma riqueza natural extraordinária quando se trata de águas minerais e posiciona a Fonte Arigatô dentro desse cenário privilegiado.
O peso de um parecer vindo de um crenologista
Em determinado momento do próprio documento, Mourão faz uma observação reveladora: ele afirma ser um dos mais antigos especialistas em crenologia no mundo, área que já começava a desaparecer das faculdades.
Essa frase carrega mais do que uma informação biográfica. Ela revela que o laudo foi produzido por alguém formado em uma tradição científica que tratava a água mineral não apenas como recurso natural, mas como objeto de estudo médico e terapêutico.
Durante boa parte do século XX, centros termais brasileiros e europeus contaram com especialistas como ele, médicos que estudavam a relação entre composição mineral, organismo humano e equilíbrio fisiológico.
Hoje, com a crenologia praticamente ausente da formação médica, documentos assinados por profissionais dessa tradição tornaram-se registros raros da história científica das águas minerais.
Um documento técnico com valor histórico
O laudo foi emitido em Poços de Caldas, em 15 de abril de 2003. Mais do que um parecer laboratorial, ele representa um encontro entre ciência, observação e experiência acumulada ao longo de décadas.
Ao avaliar a Fonte Arigatô, Mourão registra que sua água não deve nada em qualidade às melhores águas minerais do Brasil, uma afirmação significativa quando se considera a autoridade de quem a escreveu.
Esse tipo de declaração funciona quase como um selo técnico informal de excelência, vindo de um pesquisador que dedicou a vida a estudar fontes minerais em diferentes regiões do país.
Hoje, ao olhar para esse documento, não se vê apenas um relatório científico.
Vê-se um fragmento da história do termalismo, da medicina hidrológica e das águas minerais brasileiras, preservado nas palavras de um dos maiores estudiosos que o país já teve nesse campo.
